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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Conversas de Mil Histórias | Luize Valente


A convidada de hoje da rubrica Conversas de Mil Histórias é a autora Luize Valente. Autora do livro Uma Praça em Antuérpia e, mais recentemente, de Sonata em Auschwitz. Dois livros que já li e recomendo.

Luize Valente


Jardim de Mil Histórias: Como surgiu este seu interesse pela comunidade judaica?

Luize Valente: Desde muito jovem. Não sou judia. Meu pai foi quem me deu os primeiros livros com temáticas ligadas ao Holocausto. Livros como Treblinka e o Diário de Anne Frank, entre outros. Guardo até hoje um desenho que fiz, por volta dos 10 anos de idade,  da chegada de um comboio num sítio cercado por arame farpado, onde é  possível identificar pessoas com uniforme às riscas, um grupo musical num coreto, soldados, pilhas de malas no chão. Um desenho que remete a um campo de concentração.


J. M. H.: O seu mais recente livro “Sonata em Auschwitz” foi lançado recentemente. Em que se inspirou para escrever esta história?

L. V.: Sonata em Auschwitz narra a busca  da jovem portuguesa Amália pela verdadeira história de sua família depois de descobrir que seu avô alemão, Friedrich, foi um oficial nazista. Ele desapareceu após salvar uma criança judia do campo de concentração de Auschwitz. É uma ficção inspirada num facto real. Conheci uma sobrevivente do Holocausto, Maria Yefremov, que faleceu no final de 2017, aos 103 anos. Maria chegou grávida em Auchwitz, em 1944. Passou pela seleção do Dr. Mengele, o anjo da morte, e foi mandada para trabalhos forçados. O resto da família, com exceção de uma irmã, foi directamente para a câmara de gás. Maria escondeu a gravidez até o momento de dar à luz, num barracão imundo, em condições desumanas. O bebé, no entanto,  lhe foi imediatamente tirado por um soldado alemão. Maria só teve tempo de perceber que era uma menina. Essa história me marcou profundamente. Fiquei dias pensando na história, na dor daquela mãe, na covardia e crueldade daquele soldado. Sonata em Auschwitz nasceu da indignação. E se eu pudesse mudar o final desta história? E se esse soldado salvasse a bebé  ao invés de levá-la para a morte? A trama seguiu daí.


J. M. H.: A Luize é jornalista, como tal conhece todo o trabalho de pesquisa para a escrita. Como correu a pesquisa para este livro?

L. V.: Eu costumo dizer que a pesquisa histórica é o chão onde caminho para escrever minhas histórias. Para que o romance histórico envolva o leitor, é preciso haver verossimelhança interna, é preciso que os fatos históricos  sejam realmente reais, as datas, os locais. Faço uma pesquisa bem apurada, em livros, na internet, entrevisto as pessoas, viajo aos locais onde a narrativa se desenvolve. Para o Sonata em  Auschwitz visitei o campo de concentração nazi, localizado na Polónia, por três dias,  além de outros sítios por onde os personagens passam e vivem.


J. M. H.: Quais as suas grandes referências enquanto escritora?

L. V.: São tantas! Sou uma leitora compulsiva desde criança! A leitura foi e é a base da minha formação  como  escritora. Uma pergunta impossível de responder pois seria injusta com tantos autores que me influenciaram e influenciam. Vou citar três deles: Eça de Queiroz , Dostoievski e Primo Levi.


J. M. H.: Enquanto leitora o que gosta mais de ler? E o que não gosta de ler?

L. V.: Como respondi anteriormente, sou uma leitora compulsiva! E leio de tudo, do policial aos clássicos, passando por biografias, não – ficção, bestsellers, etc. E, claro, tenho uma atração especial por romances históricos e livros de História.   


J. M. H.: O que é que os leitores podem esperar deste romance?

L. V.: Para esta resposta, faço uso das palavras do escritor brasileiro, Francisco Azevedo, sobre o livro: "com descrições de tirar o fôlego e diálogos que revelam o que há de melhor e mais cruel no ser humano, ninguém ficará indiferente ao ouvir esta Sonata em Auschwitz." 


Muito obrigada à Luize por esta entrevista. Recomendo a todos a leitura deste livro A Sonata em Auschwitz

Boas leituras.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Conversas de Mil Histórias | Marlene Ferraz



Hoje trago-vos uma entrevista a Marlene Ferraz, autora do romance As Falsas Memórias de Manoel Luz, da editora Minotauro

                                   

Curiosos para conhecer um pouco mais desta autora? Então fiquem por aí.

Jardim de Mil Histórias: Como surgiu o seu gosto pela escrita?

Marlene Ferraz: «Depois do espanto pela leitura. Seria uma criança muito metida em contemplações, incomodada com o sofrimento evitável nos homens e nos bichos: ficava exageradamente comovida quando me confrontava com um pássaro ferido por um chumbo, uma borboleta com as asas gastas pela curiosidade das crianças ou um cão tão magro que poderia contar-se os ossos. E toda a violência entre homens e homens. Os livros, companheiros de horas intermináveis, resgatavam-me para outras realidades, também duras, improváveis, mas carregadas de ilusão e esperança. Como um escafandro. Ou um outro compartimento de oxigénio. Conviver com o sofrimento pede uma carga suficiente de ilusão.»

J. M. H.: A Marlene é formada em Psicologia. Como isso influencia a sua escrita?
M. F.: «O ofício da Psicologia obriga ao exercício de nos descentrarmos o mais possível da criatura que somos para nos focarmos no outro: há um desprendimento dos nossos posicionamentos (leia-se enviesamento) e uma aceitação incondicional da pessoa que temos diante. A vulnerabilidade acaba por ser a matéria de apreciação e produção: receber, com a maior transparência, as fragilidades do outro e ensaiar novas formas de ver a realidade que incomoda, como se tivéssemos em mãos um caleidoscópio. É provável que esta proximidade com o sofrimento e a renovação, neste processo infinito de redenção, esteja nas entrelinhas das (minhas) narrativas.»

J. M. H.: Já recebeu diversos prémios literários. Como reagiu a este reconhecimento?
M. F.: «Os prémios literários acabam por ampliar a coragem que precisamos para publicar: num mercado livreiro tão intimidante, em que um número infinito de livros chegam continuamente às livrarias, com listas dos mais vendidos e etiquetas de prémios internacionais, mais todos os livros espantosos doutros tempos, só com uma dose mínima de loucura (e coragem) para nos entregarmos a um desafio tão privado mas também comercial. É uma realidade paradoxal. Lembro-me de ser mais menina e ouvir um editor de maior grandeza dizer, numa conversa paralela, na espantosa livraria Centésima Página: neste momento, só publicamos de Mia Couto para cima. E eu, de coração (ou ingenuidade) esmagado, comecei a medir-me aos palmos. Nunca poderia chegar ao tamanho do (meu) encantador Mia Couto.»

J. M. H.: O seu mais recente livro, As Falsas Memórias de Manoel Luz, é uma biografia que nos fala de flores e livros.  Em que se inspirou para escrever esta história?
M. F.: «No primeiro, A Vida Inútil de José Homem, andei pelas memórias da guerra colonial, como se precisasse de recriar o cenário do Estado Novo na minha cabeça: para quem veio ao mundo dos vivos já em tempos (aparentemente) democráticos, uma guerra em território ultramar parece apenas matéria cinematográfica. Neste segundo, As Falsas Memórias de Manoel Luz, acabei por alinhavar uma narrativa no seguimento temporal: atravessamos a Revolução de Abril, entre as metáforas dos livros e das flores, já que o livreiro se levanta entre dois homens de inspirações muito opostas, o senhor Prudente, de grandezas e luxos, muito interessado no lucro e no poder, e o senhor Luz, de simplezas e afectos, dedicado ao ofício de floreiro e cuidador das flores e dos outros, a simbolizar esta bipolaridade que vivemos dentro e fora do corpo, o bem e o mal, o capitalismo e a sustentabilidade social, o amor e o medo (e continuaríamos por linhas completas).»


J. M. H.:  O que mais gosta neste processo de escrita?
M. F.: «O exercício de compor as palavras, numa ordem particular, com musicalidade e simbolismo. E a criação de homens, mulheres e bichos, com as suas estranhezas e imperfeições, num grito de liberdade pela transparência, sem a intenção (artificial) de parecermos perfeitos por fora apesar dos buracos de vulnerabilidade por dentro.»

J. M. H.: Quais as suas grandes referências enquanto escritora?
M. F.: «Agrada-me mais a palavra encontro: e tenho tido encontros tão espantosos (e os que virão, ainda). José Saramago. Herberto Helder. Gabriel García Márquez. Jorge Luís Borges. Julio Cortázar. Truman Capote. Iréne Némirovsky. Franz Kafka. Tchékhov. Dostoiévski. E uma mão de nomes mais recentes. Mia Couto. Gonçalo M. Tavares. Herta Muller. Han Kang (nos meus braços, agora). Teria de espreitar a minha estante para continuar esta biografia de encontros.»

J. M. H.: Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que o processo de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
M. F.: «Tempo é a palavra principal (para mim). Tempo para contemplar, para dialogar, para sentir, para perguntar, para viajar (por dentro). E para escrever, depois. Nunca penso em esforço ou talento mas na entrega temporal a um exercício que nos obriga a entrar numa cápsula depois dum intervalo de contemplações.»

J. M. H.: De todos os livros que já escreveu qual deles melhor define a sua escrita?
M. F.: «Mesmo o verbo escrever é dinâmico e, aparentemente, a minha escrita tem vindo a transformar-se sem que a minha cabeça (ou mãos) tenha consciência deste processo de mudança. Provavelmente, com o tempo (e todos os instantes de dúvida e experimentação e leitura), é a minha pessoa que tem vindo a metamorfosear-se, assim as borboletas, e essa renovação na forma de dentro acaba, inevitavelmente, por se diluir na forma da escrita.»

J. M. H.:  Enquanto leitora o que gosta mais de ler? E o que não gosta de ler?
M. F.: «Leio tudo. Se estiver numa fila de espera, posso até ler a tabela nutricional do produto que tenho em mãos ou a receita de uma salada improvável na revista emprestada. Ler é entrar num mundo novo, é despertar ideias, levantar os pés do chão... é escapar ao tédio. Há tantos lugares inóspitos no dia a dia. A espera num consultório. A espera numa repartição de finanças. A espera para renovar o cartão de cidadão. Os livros são territórios incríveis à nossa espera. Basta abrir uma página, pode ser ao acaso, e o milagre acontece.»

J. M. H.: Qual o livro da sua vida?
M. F.: «A lista poderia ser comprida, conforme o tempo e o lugar. Tantos os livros que me têm espantado, confortado, desafiado, até incomodado. Mas, a revisar a minha narrativa de vida, diria que o primeiro (grande) livro a criar em mim esse espanto pelo poder da escrita terá sido O Memorial do Convento, de José Saramago, leitura obrigatória (e como agradeço) no ensino secundário e ainda hoje invento na cabeça a passarola do padre Bartolomeu e o poder da Blimunda que pode ver por dentro.»

J. M. H.: Que projectos literários tem para o futuro?
M. F.: «Quando acabo um livro, a sentir-me desocupada de matéria, aviso sempre que pode ter sido o último. Analiso o meu tempo futuro e planeio usar mais horas noutros projectos, como o voluntariado e a protecção animal. Mas depois começam os primeiros cenários a virem à cabeça. Tento abafar as ideias que despontam mas o processo de instalação das novas companhias (leia-se personagens) está já num estado irreversível. Tenho uma história a fazer-se dentro de mim. Veremos o que o tempo traz.»


Marlene, muito obrigada por esta entrevista.


Nota: Opinião do livro As Falsas Memórias de Manoel Luz, de Marlene Ferraz em breve.
Boas leituras.  

terça-feira, 4 de julho de 2017

Conversas de Mil Histórias | Sandra Barão Nobre



Jardim de Mil Histórias - A Sandra tem um blogue “O Acordo Fotográfico” que liga duas das suas paixões: os livros e a fotografia. Como surgiu este blogue?


Sandra Barão Nobre - A ideia surgiu em Lisboa, em Agosto de 2010, num fim-de-semana que lá passei quando estava a aprender os rudimentos da fotografia. Num desses dias fotografei ao longe uma mulher a ler e ocorreu-me que seria interessante perguntar-lhe o que lia e depois escrever sobre isso. Partilhei a ideia com uma pessoa em meados de 2011 e fiz as primeiras fotos em Agosto de 2011. O Acordo Fotográfico só arrancou em Dezembro desse ano. Entre a ideia e a concretização passou-se um ano e meio. Porque me surgiu a ideia? Julgo que foi porque andava entediada com a minha vida profissional e precisava urgentemente de fazer algo que abanasse um pouco a rotina e a minha postura comodista, na qual não me revia de todo! Aprendi que o tédio, quando bem canalizado, pode estar na base da criatividade e da reinvenção.


J. M. H. - Neste blogue fotografa pessoas a ler, pelo mundo inteiro. Houve alguém que fotografasse que a tivesse marcado de alguma forma?
S. B. N. - Ao fim de 450 posts começa a ser difícil escolher... Tenho conhecido pessoas maravilhosas, com histórias de vida incríveis e generosidade suficiente para partilhá-las com milhares de estranhos. Gosto muito do texto que escrevi a propósito do meu encontro com a Maryam, no Irão, em Abril passado. Gosto muito, também, da história da Dora, que fotografei em Madrid, em 2013. E do post sobre o Winnie e ou Touy, que conheci no Laos, em 2014.


S.B.N. -  Qual o país que mais a marcou?
É uma escolha difícil porque todos os países que visitei estavam na minha lista de desejos por concretizar um dia. Visitar o Brasil pela enésima vez foi emocionante. Adorei Sydney, Timor-Leste foi incrível, Zanzibar é tão lindo que custa a crer que seja real, a África do Sul é belíssima, São Tomé e Príncipe não me sai da cabeça e o Irão está a transformar-se num vício. Talvez possa dizer que o Vietname me marcou particularmente porque não estava à espera de gostar tanto. Foi uma paixão ensolapada que me apanhou desprevenida e que ainda não processei racionalmente. E o Irão, também, por causa dos sentimentos mistos que me suscita: a sofisticada e refinada cultura persa vs. o fundamentalismo islâmico; o povo mais acolhedor do mundo vs. a vida sem democracia...
Sandra Barão Nobre


J. M. H. - A Sandra tem um projecto de terapia através dos livros: “A Biblioterapeuta”. Fale-nos um pouco desse projecto.
S. B. N. - Cruzei-me com o conceito de Biblioterapia em 2012/2013. Não sabia que a palavra existia, mas entendi imediatamente o significado que encerrava. Havia anos que procurava ajuda nos livros e que aconselhava livros a familiares, amigos e clientes (porque fui livreira durante 12 anos) com base no seu potencial terapêutico e transformador. Parti para a volta ao mundo, em 2014, com a Biblioterapia na cabeça e quando, em 2015, decidi mudar de vida vi nela a possibilidade de um novo caminho profissional. Obtive primeiro um certificado internacional de Coaching Practitioner e posteriormente apliquei a metodologia do Coaching à Biblioterapia que exerço. Lancei o serviço em Maio de 2016, há um ano, e estou satisfeita com a forma como tem progredido.


J. M. H. - Portanto acredita no poder curativo dos livros. Descreva uma situação em que sentiu que os livros a ajudaram.
S. B. N. - Já sentia a necessidade de me reinventar profissionalmente ainda antes de pedir a licença sem vencimento e partir para a grande viagem de seis meses à volta do mundo. Entre 2013 e 2015, já depois do regresso à vida dita “normal”, houve um punhado de livros que me ajudou a tomar a decisão de mudar de vida, de ser fiel aos meus valores de uma vez por todas e perseguir os meus sonhos, apesar dos evidentes sacrifícios que seriam necessários. Foram eles: “Um longo caminho para a liberdade”, de Nelson Mandela; “Como encontrar o trabalho perfeito”, de Roman Krznaric; “O elemento”, de Ken Robinson e “Projectar a felicidade”, de Paul Dolan. O clássico “Inteligência Emocional”, de Daniel Golan, foi lido muitos anos antes, mas também foi fundamental porque me deu ferramentas para a vida.


J. M. H. - Que tipo de trabalho faz a Biblioterapeuta?
S. B. N. - A Biblioterapia que exerço — quer com clientes individuais, quer em contexto corporativo — trabalha em prol de uma mudança para melhor. Procuro conhecer o melhor possível a pessoa ou instituição que procura os meus serviços, investigo e apresento a lista de títulos a ler, providencio algumas orientações para essas leituras e depois, no decorrer das sessões seguintes, trabalhamos sobre as aprendizagens e descobertas feitas e vemos de que forma podem ser aplicadas na vida do dia a dia,  através do estabelecimento de um plano de acção, para potenciar uma transformação positiva. Aqui, gostaria de salientar que o grau de compromisso dos clientes é fundamental para que o método funcione.


J. M. H. - O que a mais fascina neste novo desafio profissional?
S. B. N. - A aprendizagem constante e a noção de que estou a ajudar os outros.


Para mais informações sobre o livro
J. M. H. - Lançou recentemente um livro Uma Volta ao Mundo com Leitores. Como surgiu esta oportunidade? Sempre foi um desejo seu?
S. B. N. - Quando regressei da volta ao mundo, em 2014, achei que poderia ter material para
publicar um livro sobre a experiência enquanto viajante e autora do Acordo Fotográfico. Contactei duas editoras: uma disse-me que o projecto, tal e qual e o concebera, não era comercialmente viável; a outra nunca me respondeu. Passaram-se uns meses sem que pensasse nisso, mas a verdade é que quando fui para Cabo Verde trabalhar, em 2015, levei comigo tudo o que tinha escrito durante a grande viagem e ocupei as minhas horas livres a organizar os textos e a passar os diários a limpo. O livro ficou praticamente terminado nessa altura. Depois fechei-o na gaveta. Até ao dia 27 de Dezembro de 2016, quando chegou por e-mail o convite da Relógio d’ Água.


J. M. H. - Enquanto leitora que livros gosta de ler? E do que não gosta de ler?
S. B. N. - Dei-me conta recentemente que não leio livros de política, economia, gestão... Gosto muito de ler romances e foi o género literário que mais consumi até há uns dois ou três anos. Mas agora estou a ler muito mais ensaios filosóficos, históricos, obras da área das ciências sociais. Dos dez livros que li este ano, apenas três eram de ficção.


J. M. H. - Que projectos tem para um futuro próximo?
S. B. N. - Tenho uma série de projectos de Biblioterapia importantes a arrancar e para os quais tenho grandes objectivos. Não me posso adiantar muito ainda, mas julgo que terão, a longo prazo, um impacto social significativo. Vou continuar a escrever para o Acordo Fotográfico, claro, e espero que as viagens sejam uma importante fonte de inspiração. Em Outubro parto para Myanmar para mais uma viagem Magellan Route organizada por mim. Se alguém se quiser juntar ao grupo é só entrar em contacto comigo: ainda há vagas. Em 2018 voltarei ao Irão. De forma mais imediata, estou agora a investir na promoção do meu livro “Uma Volta ao Mundo com Leitores”.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
S. B. N. - Esta é aquela pergunta que me faz provar do meu próprio veneno, porque também eu a coloco muitas vezes aos leitores que fotografo e é raro alguém saber responder com convicção. Pois bem, é muito difícil escolher apenas um livro, mas posso apontar “Os Maias”, do Eça de Queirós, como o romance que me ajudou a fazer a transição da Literatura juvenil para a Literatura dos adultos e para a grande Literatura. Devo-lhe muito como leitora, formou-me e tornou-me exigente. Depois, mais recentemente, “Servidão Humana”, de Somerset Maugham e “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, um livro colossal que tem toda a Humanidade lá dentro. Estou constantemente a pegar nele para reler um parágrafo ou outro.

Sandra, muito obrigada por esta entrevista.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Conversas de Mil Histórias | Nuno Nepomuceno



Após uma longa pausa hoje retomamos um segmento aqui no blogue: As Conversas de Mil Histórias. Um espaço de conversas sobre livros com diversos convidados. 

O convidado de hoje é o Nuno Nepomuceno, autor dos livros A Célula Adormecida e da Trilogia Freelancer, composta por O Espião Português, A Espia do Oriente (opinião em breve) e A Hora Solene (opinião em breve).

Espero que gostem e que leiam os livros do autor Nuno Nepumoceno, pois valem muito a pena. 



Jardim de Mil Histórias - O Nuno é formado em Matemática. Como surgiu esta paixão pela escrita e por contar histórias?

Nuno Nepomuceno - Iniciou-se com a leitura. Por influência da minha mãe, que sempre me incentivou a isso, acabei por crescer acompanhado por livros. Os meus gostos foram evoluindo com a idade, claro. Recordo-me de ler coleções como Os Cinco, Os Hardy ou Uma Aventura, que me eram oferecidas pelo Natal ou que ia requisitar à biblioteca municipal. Gostava bastante de o fazer, de andar pela rua com os livros na mão enquanto ia e vinha.
Depois, quando passei a ser financeiramente independente, é que comecei a investir mais noutros géneros, como os thrillers. Houve um momento a partir do qual, que não sou capaz de precisar com exatidão, em que comecei a sentir curiosidade sobre como seria estar do outro lado, ou seja, ter o poder de criar e manipular as personagens, entrando, assim, no imaginário do leitor. Hoje em dia é isso que me motiva mais — a possibilidade de suscitar emoções em que lê o meu trabalho.

Nuno Nepomuceno


J.M.H. - A trilogia “Freelancer” teve um grande impacto nos leitores. Foi com a primeira parte, “O Espião Português”, que ganhou, em 2012, o Prémio Literário Note!. Estava à espera desse reconhecimento?

N. N. - Eu já publiquei quatro livros e quer o processo, como os resultados que obtive, foram diferentes em todos eles. É difícil dizer se eu esperava ganhar um prémio revelação ou se aquele livro que eu tinha escrito durante oito anos se tornaria num sucesso comercial. Quando concorri, quis acreditar que sim, e quando O Espião Português foi colocado à venda, desejei-lhe o melhor. Mas nunca se sabe muito bem o que vai acontecer. O mercado livreiro não é tão previsível quanto possamos pensar e, por vezes, há surpresas, sejam elas boas ou más. Eu limito-me a ser otimista.



J. M. H. -  O seu mais recente livro “A Célula Adormecida” desperta-nos para uma hipótese de ataque terrorista em Lisboa. Hoje em dia é uma hipótese bem real. O que pretendeu com esta história?


N. N. - Tive dois objetivos, essencialmente. O primeiro foi provocar uma mudança na minha carreira. A trilogia Freelancer acabou por deixar uma marca algo inesperada, sobretudo, devido ao carisma do protagonista, e eu quis distanciar-me de tal, ou seja, mostrar ao meu público que sou um escritor com mais do que uma dimensão e, através disso, cativar outros leitores. Daí A Célula Adormecida ser um romance bem mais negro do que os anteriores que publiquei, assumindo-se claramente com um thriller psicológico e não tanto como um policial.
Por outro lado, desejava abordar um tema que julgo ser importante e que, infelizmente, começa a fazer parte da nossa vida diária. Os grupos terroristas têm muitas nuances, estando, por vezes, associados as outros fenómenos de forma mais ou menos direta. Foi assim também que surgiu a ideia de abordar temas fraturantes da nossa sociedade, que com o livro desejei colocar sob reflexão. Refiro-me aos movimentos migratórios, à instabilidade no Médio Oriente, ao extremismo e radicalização da Europa, entre outros. A mensagem final que tentei transmitir foi a de tolerância. Espero que tenha chegado aos leitores.


J. M. H. - Nota-se nos seus livros um grande rigor factual, histórico e social. Faz algum trabalho de investigação prévia?

N. N. - Sim, é algo que comecei a trabalhar logo com O Espião Português, mas que tem ganho preponderância em todo o meu processo criativo com o passar dos anos. Procuro ler sobre os temas que quero abordar, visitar os locais que escolho para a ação dos livros, entrevistar especialistas ou até mesmo viver parte daquilo que desejo descrever. Por exemplo, assisti a alguns serviços religiosos na Mesquita Central de Lisboa durante o ano em que dediquei à redação de A Célula Adormecida. E isso acabou por ser muito importante para mim, pois, enquanto estava lá sentado a observar em silêncio as pessoas que rezavam, as ideias iam surgindo naturalmente.


J. M. H. - Quais as suas grandes referências enquanto escritor?

N. N. - Em termos técnicos, não tenho ninguém. A escrita não é estanque e há certas formas de o fazer que aprecio e outras que nem por isso. Procuro escrever aquilo com me sinto confortável, incluindo as opções criativos que tomo, não embarcando em modas ou fórmulas que se dizem ser extremamente vendáveis na atualidade. Fora isso, há autores cuja carreira vejo como um exemplo e cujos livros me dão bastante prazer. Posso citar os casos de Ken Follet e Daniel Silva, se bem que existam outros. Já li excelentes obras fora do registo policial.


J. M. H. - Em que é se inspira para escrever?
N. N. - É um processo misto. Tanto pode vir de uma fotografia, como aconteceu com A Espia do Oriente, ou através de uma canção, como foi o caso de A Hora Solene. Ou até um livro, no caso do conto « A Cidade», com o qual integrei a coletânea Desassossego da Liberdade. Mas tento manter um espírito aberto e ser recetivo a novos elementos. Por vezes, as melhores ideias surgem de forma inesperada. De repente, estou a escrever e é como se os dedos tivessem vida própria. Há uma frase que surge sem ser planeada e que muda tudo.


J. M. H. - Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que o processo de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
N. N. - Eu gosto de pensar que tenho algum talento. Se assim não fosse, não iria escrever, pois foi a vontade de mostrar aos outros o que considero ser capaz de fazer que me levou a começar, independentemente do muito ou pouco sucesso que viesse a ter. Mas tudo requer imenso trabalho e quando começamos um livro é bom que estejamos cientes de que não vai ser fácil. Se a memória não me falha, nunca escrevi um capítulo à primeira. Chego a revê-los quatro e cinco vezes e até a reescrevê-los constantemente ou mesmo deitá-los fora.


J. M. H. - Sente de alguma forma que a literatura portuguesa não é tão valorizada face à literatura internacional?
N. N. - Existe algum desfavorecimento, sim, mas que penso ter-se atenuado nos últimos tempos. Há autores portugueses que vendem mais em alturas muito críticas, como o Natal, do que os escritores estrangeiros. Espero que seja uma situação que tenda a continuar a evoluir de forma positiva no futuro. Pelo menos, o passado recente dá-nos alguma esperança nesse sentido. Há alguns anos, a ficção portuguesa debatia-se para competir com a norte-americana ou brasileira e hoje em dia lidera audiências. O mesmo tem vindo a acontecer com a nossa música. Nós temos uma relação algo curiosa com o que fazemos. Julgamos sempre que é de qualidade inferior. O que nos chega de fora exerce um grande fascínio sobre o consumidor. Resta a esperança que, à semelhança da transformação que tem vindo a ocorrer noutros setores da cultura, o mesmo se venha a suceder com a literatura nacional.


J. M. H. - Enquanto leitor o que gosta mais de ler? E o que não gosta de ler?
N. N. - Aprecio essencialmente thrillers e policiais, com algumas incursões felizes pela fantasia e romances históricos, mas ciente de que um bom livro deve ser lido e, portanto, com abertura para as surpresas que poderão surgir. E não tenho nenhum género, formato ou autor que me cause aversão. Ler faz parte da nossa vida. Precisamos de o fazer diariamente.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
N. N. - Os Pilares da Terra, de Ken Follett, e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Adoro as épocas históricas em que decorrem e admiro os autores pelo excelente trabalho que realizaram com os livros. O Estranho Caso do Cão Morto, de Mark Haddon, também é uma obra que me marcou muito, sobretudo, pela forma criativa e sensível com que explorou o tema do autismo.


J. M. H. - Para quem não conhece a sua obra, e no sentido de convencer o nossos leitores a ler os seus livros, qual deles define melhor a sua escrita?
N. N. - Esta é uma pergunta muito difícil. Todos eles são especiais para mim à sua maneira. Os primeiros porque não foi fácil publicá-los, além de terem exigido um esforço considerável para os escrever, já que não possuía qualquer experiência; os últimos porque traduzem melhor a pessoa que sou hoje em dia. Prefiro que sejam os meus leitores a decidir isso.


J. M. H. - Que projetos literários tem para o futuro?
N. N. - Neste momento, encontro-me a trabalhar em mais um thriller psicológico, que, apesar de ter alguns pontos de contacto com A Célula Adormecida, não será sobre terrorismo, embora envolva de novo uma grande dimensão cultural e religiosa, além de outros elementos que são transversais ao meu trabalho, como aventura, romance, espionagem e alguma ação.
Estou numa fase importante do livro, mas algo embrionária, ainda, razão pela qual não sei quando será publicado. Prefiro levar o meu tempo e regressar quando me sentir preparado, quando tiver a certeza de que este é o meu melhor livro até ao momento.


J. M. H. - Nuno, muito obrigada por esta entrevista.
N. N. - Eu é agradeço a oportunidade e convido todos os leitores a continuarem a passear pelas mil histórias do seu jardim.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Conversas de Mil Histórias | Alix Christie


Hoje nasce mais um segmento aqui no blog: Conversas de Mil Histórias. Um espaço de entrevistas e conversas onde pudemos ficar a conhecer os autores e as suas obras.

E a estreia desta rubrica não podia ser melhor. Alix Christie, autora do livro O Aprendiz de Guttemberg, lançando este mês pela editora Saída de Emergência foi a minha primeira convidada.

Um livro e uma autora que valem bem a pena conhecer.

Espero que gostem.



Jardim de Mil Histórias - Your familiy is linked to world of printing. How was it to grow inside that business?
Alix Christie - I was lucky to have a grandfather who ran a type foundry in San Francisco and printed by letterpress at home. From him I got my love of the press, which also included the presses of newspapers. I'm a journalist like my mother before me, and I think that my whole life I have believed that printed words are the most powerful tool we have for human progress. And making books by hand is just a lot of fun.


J.M.H. - In what way was that important for your love for writing?
A. C. - Writing followed reading. We're a bookish family: everybody in my family reads a lot and some of us became writers; my sister is a poet.  If you cherish words and writing, you really appreciate excellent writing, and are somehow inspired to aim much higher yourself. I really am mainly interested in literature that tries to reveal the world, in as true a way as possible.


J.M.H. - How did you come up with the idea of writing a book about Gutenberg?
A. C. - It was a lucky coincidence: I read a news article about how Gutenberg might have made his first types, then I found a book about Peter Schoeffer, his apprentice. My interest and curiosity were piqued, and the more I researched, the more I was amazed that the story hadn't really been told in a fictional way before.


J.M.H. - This novel The Gutemberg Apprendice is based on true events?
A. C. - Yes. It was very important to me to try to tell as accurate a story as possible, based on what book historians know about these long-ago events. I wanted to imagine a tale that might explain the books and evidence that have survived, and put this historic invention in its time and place. It's a historical fiction, and as such is my own interpretation of things that might have happened 565 years ago.


J.M.H. - What readers can expect from this book?
A. C. - I've been told that readers really feel they are immersed in the world of the late Middle Ages in Germany, and are living this amazing adventure right along with the characters. It's also clear that many of the feelings this new technology brought to people then are parallel to what we are experiencing today. So readers should prepare to reflect on the impact of digital technology on their own lives, just as those medieval readers felt this staggering new technology changing theirs.


J.M.H. - What are your favorite authors?
A. C. - Fyodor Dostoevsky, George Eliot, Don DeLillo, Marilynne Robinson, Hilary Mantel.


J.M.H. - What projects do you have for the future?
A. C. - I'm finishing some short stories while I begin research on my next historical novel, set in 19th century America.


Alix, thank you for this interview.

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J.M.H. - A sua família está ligada ao mundo da impressão. Como foi crescer no seio desse mundo?
A. C. - Tive a sorte de ter um avô que geria uma fundição em São Francisco e poder fazer impressão tipográfica em casa. O amor pelo mundo da impressão veio dele, assim como o gosto pelos jornais. Sou jornalista, como também a minha mãe, e durante toda a minha vida considerei que a impressão de palavras é um dos instrumentos mais poderosos do desenvolvimento humano. E poder fazer os livros à mão é muito divertido.


J.M.H. - Em que medida é que isso foi importante neste seu gosto pela impressão?
A. C. - Depois da leitura vem a escrita. Somos uma família amante de livros: todos os membros da minha família lêem muito e alguns tornaram-se escritores. Se aprecia palavras também aprecia uma boa escrita e sentir-se-á inspirada. Tenho especial interesse na literatura que tenta revelar o mundo, na sua verdadeira essência.


J.M.H. - Como lhe surgiu a ideia de escrever um livro sobre Gutemberg?
A. C. - Foi uma feliz coincidência. Li um artigo sobre como Gutemberg tinha feito as suas primeiras impressões, e descobri um livro sobre Peter Schoeffer, o seu aprendiz. O meu interesse e curiosidade aumentaram e quanto mais pesquisava mais maravilhada ficava pelo facto desta história nunca ter sido contada através de ficção. 


J.M.H. - Este seu romance O Aprendiz de Gutemberg é baseado em eventos verídicos?
A.C. - Sim. Foi muito importante para mim contar uma história tão precisa quanto possível com base no que os livros dos historiadores nos contam sobre estes eventos. Queria imaginar uma história que pudesse explicar os livros e os factos que sobreviveram e colocar estes eventos históricos no seu devido tempo e local. É um romance histórico e é a minha interpretação das coisas que aconteceram há 565 anos atrás.


J.M.H. - O que é que os leitores podem esperar deste romance?
A. C. - Têm me dito que os leitores sentem verdadeiramente este mundo da Idade Média na Alemanha e vivem esta maravilhosa experiência juntamente das personagens. É certo, também, que muitos destes sentimentos que estas novas tecnologias trouxeram às pessoas da altura são paralelas ao que vivemos hoje em dia. Desta forma, os leitores devem estar preparados para reflectir sobre o impacto da tecnologia digital nas suas vidas, assim como os aqueles leitores medievais sentiram esta nova tecnologia na mudança da vida deles. 


J.M.H. - Quais são os seus autores preferidos?
A. C. - Fyodor Dostoievski, George Eliot, Don DeLillo, Marilynne Robinson, Hilary Mantel.


J.M.H. - Quais são os seus projectos para o futuro?
A. C. - Estou a terminar alguns contos e também a investigar para o meu próximo romance histórico que se irá passar, na América, no século XIX. 


Alix, muito obrigada por esta entrevista.



Boas leituras a todos!


Nota:

Esta entrevista foi realizada com o apoio da editora Saída de Emergência.