sexta-feira, 7 de julho de 2017

Opinião | "As Pupilas do Senhor Reitor", de Júlio Dinis


Título: As Pupilas do Senhor Reitor
Autor(a): Júlio Dinis
N.º de Páginas: 376 páginas
Editora: Guerra & Paz
Colecção: Clássicos da Guerra & Paz
Edição: 2017
Temática/Género: Literatura/Romance

Classificação: 4,5 estrelas



Sinopse:
Um dos romances mais conhecidos da literatura portuguesa. Daniel, um jovem médico petulante, regressa à aldeia onde nasceu, depois de se ter formado. Margarida, amiga de infância, ali se manteve, ansiando pelo seu regresso. Mas Daniel já não é o mesmo. Esqueceu-se da vida passada. Urbanizou-se. Haverá um reencontro?
É bucólico, é inocente, é admirável. Leia-o!

Opinião:
Há uma sensação constante que os clássicos são aborrecidos, narrativa lenta e uma linguagem complexa. É certo que têm uma linguagem própria da época em que foram escritos, mas desenganem-se se acham que são aborrecidos. As Pupilas do Senhor Reitor, é uma boa prova disso.

Quero cada vez mais ler clássicos, principalmente portugueses. Estou a sentir que passei ao lado de toda uma geração de escritores que gostaria agora de conhecer. Esta minha saga iniciou-se com Júlio Dinis, autor de estreia para mim.

Gostei muito de ler este livro. Iniciei a leitura sem qualquer expectativas, pois já aprendi que deveria ser sempre assim. Uma história simples, mas muito bem escrita. Encontramos nele costumes, tradições, hábitos e uma linguagem específicos do Séc. XIX. Todos já conhecemos um pouco do que era o nosso país nessa altura, especialmente no norte do país. A medicina trazia novos métodos e revolucionários para alguns, mentalidades mais fechadas e tradicionais, mas com um grande valor familiar. A família era tudo. O respeito e a (des)obediência. A lealdade e a fidelidade. São valores muito presentes nesta história. Uma história que vale a pena ler e reler.

Vamos ler mais clássicos?! Claro que sim.

Boas leituras.

Nota:
Este livro foi-me disponibilizado pela Editora Guerra & Paz em troca de uma opinião honesta.





Esta foi uma leitura para o Desafio Literário Book Bingo "Leituras ao Sol", na categoria "Clássico Português".



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Opinião | "Mãe, não desistas de viver", de Tânia Laranjo


Título: Mãe, não desistas de viver
Autor(a): Tânia Laranjo
Editora: Chá das Cinco (Chancela Saída de Emergência)
Temática/Género: Não-Ficção / Testemunho
N.º de Páginas: 208 páginas
Edição: 2017

Classificação: 4 estrelas


Sinopse:
Esta é a história verídica de Ana. Uma menina de sete anos morta por um pai para se vingar da mulher que o abandonou. É também a história de Carolina, a mãe, e da sua viagem ao inferno. E de João, esse pai que ninguém conhecia verdadeiramente, e que foi capaz de matar quem amava. Esta história é a junção de muitas histórias reais. Todos os anos há crianças que são assassinadas em contextos de divórcios litigiosos. Pais ou mães que matam os filhos por vingança, para provarem que ganharam. Para castigarem quem só queria ter outra vida. 

Depois de vários anos de jornalismo e a fazer reportagens de violência doméstica, Tânia Laranjo continua sem respostas perante a morte de crianças. E, com esta obra poderosa e muito pessoal, leva-nos a questionar como é possível o amor andar de mãos dadas com a mais pura das maldades.


Opinião:
Há leituras que nos marcam. Esta foi uma delas. Este é mais um livro de não-ficção que aborda um tema duro, difícil...a violência doméstica. E enquanto estou a pensar sobre o quanto este livro me marcou há crianças que são assassinadas pelos progenitores por esse mundo fora, há homens e mulheres a sofrerem em silêncio ou a serem mortos pelos cônjuges. 

Infelizmente é uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade. Não há palavras descrever certas e determinadas acções. E quando falamos de pais que assassinam os próprios filhos...muito menos. 

A autora é jornalista e conta-nos a história de Ana, uma criança de 8 anos, que é assassinada pelo pai, apenas para se vingar da mãe. Não aceitou o divórcio. Apenas isso. Acompanhamos a sua história, como tudo se passou. Uma história macabra que de simples não tem nada. É assustador pensar que quem é destinado a amar faça uma coisa destas e que sinta o que este homem sentiu.

Um livro duro de ler, não só como mãe, mas como ser humano.

Boas leituras.


Nota:
Este livro foi-me disponibilizado pela Editora Saída de Emergência em troca de uma opinião honesta.

Para mais informações sobre o livro ver aqui.





Esta foi uma leitura para o Desafio Literário Book Bingo "Leituras ao Sol", na categoria "Livro do teu género preferido".



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Opinião | "#Geração Cordão - A geração que nunca desliga", de Ivone Patrão


Título: #Geração Cordão - A geração que nunca desliga
Autor(a): Ivone Patrão
Editora: PACTOR
Temática/Género: Não-Ficção / Educação
N.º de Páginas: 160 páginas
Edição: 2017

Classificação:  estrelas



Sinopse:
A tecnologia passou a controlar as nossas vidas?
Conseguirão os nossos jovens algum dia desligar?
Como pais, que modelos estamos a passar?
E a escola, qual o papel a desenvolver?

O mundo mudou!
Todos estamos mais ligados! E é esta ligação que está na base da Geração Cordão. Desta geração fazem parte os jovens que não conseguem desligar nem por um segundo: estão sempre online, comunicam online, passam horas imersos nas redes sociais com os amigos ou em jogos online, completamente alheios ao resto do mundo. 
Até que ponto será saudável? Como pais estaremos a agir bem? Como devemos gerir esta vontade de estar sempre conectado? Quando dizer que já chega? Estaremos nós a dar o melhor exemplo aos nossos filhos? O que podem as escolas e as comunidades fazer para melhor gerir a tecnologia na vida dos jovens?
Estas são algumas das perguntas que a Psicóloga Ivone Patrão responde ao longo deste livro que nos faz repensar a educação dos nossos filhos numa era em que tudo é digital. Um guião que pretende ajudar os pais, os professores e a sociedade a tornar as crianças mais felizes e melhor integradas na comunidade.
Com testemunhos (de figuras públicas, um jovem youtuber, uma professora, um psicólogo, um enfermeiro e uma educadora), casos reais (reveja-se em muitas situações) e inúmeras dicas práticas para um consumo saudável da Internet!

Se o seu filho passa muito tempo online, este livro é para si!



Opinião:
Livros de não-ficção já começam a ser muito habituais aqui pelo blogue. Gosto de aprofundar os temas, de saber a razão das coisas. 

Conheci este livro por acaso. Despertou-me logo a atenção. Por estar constantemente ligada à Internet. Por ser e ver o meu filho estar cada vez mais no mesmo caminho e não saber como lidar com isso. Este é um livro de não-ficção sobre uma geração que não desliga.

Tenho um blogue, página de Facebook, Instagram, Pinterest, Spotify, Youtube, Goodreads...Palavras para quê! Estou sempre ligada. Digo que as redes sociais não mandam na minha vida, mas acabo por estar ligada a elas. Claro, que como adulta tenho a noção das horas que perco apenas nos "feeds", mas tento controlar ao máximo para não perder temo com o que não me interessa. 

Este livro aborda tudo isto e mais o que possam imaginar. A autora é Psicóloga e seguiu inúmeros casos de jovens dependentes da Internet. E foi inspirada nesses casos que lançou este livro, no sentido de consciencializar pais e educadores sobre estas novas dependências nos jovens e nas suas consequências. 

É um tema difícil. Pois se, por um lado, enquanto pais queremos que passem o mínimo de tempo na Internet, enquanto adultos independentes estamos, também, constantemente online e a transmitir isso aos nossos filhos. Equilíbrio é a palavra-chave. Contudo, como a própria autora afirma, é muito difícil. Teria que haver um diálogo e acordo entre ambos no sentido de estabelecer regras. Diálogo esse muitas evitado ou inexistente pela demasia utilização da Internet.

Não julgo ninguém. Cada pai/mãe fará como entende e como lhe for mais conveniente. Contudo, aconselho a leitura a todos deste livro. Alerta para esta temática e as possíveis consequências nos nossos filhos. Quero estar informada, para posteriormente fazer aquilo que me for possível e de acordo com os meus valores.

Se vou conseguir...não sei. Mas não será por falta de informação.

Boas leituras.


Extras:





Nota:
Este livro foi-me disponibilizado pela Editora PACTOR em troca de uma opinião honesta.

Para mais informações sobre o livro ver aqui.


terça-feira, 4 de julho de 2017

Conversas de Mil Histórias | Sandra Barão Nobre



Jardim de Mil Histórias - A Sandra tem um blogue “O Acordo Fotográfico” que liga duas das suas paixões: os livros e a fotografia. Como surgiu este blogue?


Sandra Barão Nobre - A ideia surgiu em Lisboa, em Agosto de 2010, num fim-de-semana que lá passei quando estava a aprender os rudimentos da fotografia. Num desses dias fotografei ao longe uma mulher a ler e ocorreu-me que seria interessante perguntar-lhe o que lia e depois escrever sobre isso. Partilhei a ideia com uma pessoa em meados de 2011 e fiz as primeiras fotos em Agosto de 2011. O Acordo Fotográfico só arrancou em Dezembro desse ano. Entre a ideia e a concretização passou-se um ano e meio. Porque me surgiu a ideia? Julgo que foi porque andava entediada com a minha vida profissional e precisava urgentemente de fazer algo que abanasse um pouco a rotina e a minha postura comodista, na qual não me revia de todo! Aprendi que o tédio, quando bem canalizado, pode estar na base da criatividade e da reinvenção.


J. M. H. - Neste blogue fotografa pessoas a ler, pelo mundo inteiro. Houve alguém que fotografasse que a tivesse marcado de alguma forma?
S. B. N. - Ao fim de 450 posts começa a ser difícil escolher... Tenho conhecido pessoas maravilhosas, com histórias de vida incríveis e generosidade suficiente para partilhá-las com milhares de estranhos. Gosto muito do texto que escrevi a propósito do meu encontro com a Maryam, no Irão, em Abril passado. Gosto muito, também, da história da Dora, que fotografei em Madrid, em 2013. E do post sobre o Winnie e ou Touy, que conheci no Laos, em 2014.


S.B.N. -  Qual o país que mais a marcou?
É uma escolha difícil porque todos os países que visitei estavam na minha lista de desejos por concretizar um dia. Visitar o Brasil pela enésima vez foi emocionante. Adorei Sydney, Timor-Leste foi incrível, Zanzibar é tão lindo que custa a crer que seja real, a África do Sul é belíssima, São Tomé e Príncipe não me sai da cabeça e o Irão está a transformar-se num vício. Talvez possa dizer que o Vietname me marcou particularmente porque não estava à espera de gostar tanto. Foi uma paixão ensolapada que me apanhou desprevenida e que ainda não processei racionalmente. E o Irão, também, por causa dos sentimentos mistos que me suscita: a sofisticada e refinada cultura persa vs. o fundamentalismo islâmico; o povo mais acolhedor do mundo vs. a vida sem democracia...
Sandra Barão Nobre


J. M. H. - A Sandra tem um projecto de terapia através dos livros: “A Biblioterapeuta”. Fale-nos um pouco desse projecto.
S. B. N. - Cruzei-me com o conceito de Biblioterapia em 2012/2013. Não sabia que a palavra existia, mas entendi imediatamente o significado que encerrava. Havia anos que procurava ajuda nos livros e que aconselhava livros a familiares, amigos e clientes (porque fui livreira durante 12 anos) com base no seu potencial terapêutico e transformador. Parti para a volta ao mundo, em 2014, com a Biblioterapia na cabeça e quando, em 2015, decidi mudar de vida vi nela a possibilidade de um novo caminho profissional. Obtive primeiro um certificado internacional de Coaching Practitioner e posteriormente apliquei a metodologia do Coaching à Biblioterapia que exerço. Lancei o serviço em Maio de 2016, há um ano, e estou satisfeita com a forma como tem progredido.


J. M. H. - Portanto acredita no poder curativo dos livros. Descreva uma situação em que sentiu que os livros a ajudaram.
S. B. N. - Já sentia a necessidade de me reinventar profissionalmente ainda antes de pedir a licença sem vencimento e partir para a grande viagem de seis meses à volta do mundo. Entre 2013 e 2015, já depois do regresso à vida dita “normal”, houve um punhado de livros que me ajudou a tomar a decisão de mudar de vida, de ser fiel aos meus valores de uma vez por todas e perseguir os meus sonhos, apesar dos evidentes sacrifícios que seriam necessários. Foram eles: “Um longo caminho para a liberdade”, de Nelson Mandela; “Como encontrar o trabalho perfeito”, de Roman Krznaric; “O elemento”, de Ken Robinson e “Projectar a felicidade”, de Paul Dolan. O clássico “Inteligência Emocional”, de Daniel Golan, foi lido muitos anos antes, mas também foi fundamental porque me deu ferramentas para a vida.


J. M. H. - Que tipo de trabalho faz a Biblioterapeuta?
S. B. N. - A Biblioterapia que exerço — quer com clientes individuais, quer em contexto corporativo — trabalha em prol de uma mudança para melhor. Procuro conhecer o melhor possível a pessoa ou instituição que procura os meus serviços, investigo e apresento a lista de títulos a ler, providencio algumas orientações para essas leituras e depois, no decorrer das sessões seguintes, trabalhamos sobre as aprendizagens e descobertas feitas e vemos de que forma podem ser aplicadas na vida do dia a dia,  através do estabelecimento de um plano de acção, para potenciar uma transformação positiva. Aqui, gostaria de salientar que o grau de compromisso dos clientes é fundamental para que o método funcione.


J. M. H. - O que a mais fascina neste novo desafio profissional?
S. B. N. - A aprendizagem constante e a noção de que estou a ajudar os outros.


Para mais informações sobre o livro
J. M. H. - Lançou recentemente um livro Uma Volta ao Mundo com Leitores. Como surgiu esta oportunidade? Sempre foi um desejo seu?
S. B. N. - Quando regressei da volta ao mundo, em 2014, achei que poderia ter material para
publicar um livro sobre a experiência enquanto viajante e autora do Acordo Fotográfico. Contactei duas editoras: uma disse-me que o projecto, tal e qual e o concebera, não era comercialmente viável; a outra nunca me respondeu. Passaram-se uns meses sem que pensasse nisso, mas a verdade é que quando fui para Cabo Verde trabalhar, em 2015, levei comigo tudo o que tinha escrito durante a grande viagem e ocupei as minhas horas livres a organizar os textos e a passar os diários a limpo. O livro ficou praticamente terminado nessa altura. Depois fechei-o na gaveta. Até ao dia 27 de Dezembro de 2016, quando chegou por e-mail o convite da Relógio d’ Água.


J. M. H. - Enquanto leitora que livros gosta de ler? E do que não gosta de ler?
S. B. N. - Dei-me conta recentemente que não leio livros de política, economia, gestão... Gosto muito de ler romances e foi o género literário que mais consumi até há uns dois ou três anos. Mas agora estou a ler muito mais ensaios filosóficos, históricos, obras da área das ciências sociais. Dos dez livros que li este ano, apenas três eram de ficção.


J. M. H. - Que projectos tem para um futuro próximo?
S. B. N. - Tenho uma série de projectos de Biblioterapia importantes a arrancar e para os quais tenho grandes objectivos. Não me posso adiantar muito ainda, mas julgo que terão, a longo prazo, um impacto social significativo. Vou continuar a escrever para o Acordo Fotográfico, claro, e espero que as viagens sejam uma importante fonte de inspiração. Em Outubro parto para Myanmar para mais uma viagem Magellan Route organizada por mim. Se alguém se quiser juntar ao grupo é só entrar em contacto comigo: ainda há vagas. Em 2018 voltarei ao Irão. De forma mais imediata, estou agora a investir na promoção do meu livro “Uma Volta ao Mundo com Leitores”.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
S. B. N. - Esta é aquela pergunta que me faz provar do meu próprio veneno, porque também eu a coloco muitas vezes aos leitores que fotografo e é raro alguém saber responder com convicção. Pois bem, é muito difícil escolher apenas um livro, mas posso apontar “Os Maias”, do Eça de Queirós, como o romance que me ajudou a fazer a transição da Literatura juvenil para a Literatura dos adultos e para a grande Literatura. Devo-lhe muito como leitora, formou-me e tornou-me exigente. Depois, mais recentemente, “Servidão Humana”, de Somerset Maugham e “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, um livro colossal que tem toda a Humanidade lá dentro. Estou constantemente a pegar nele para reler um parágrafo ou outro.

Sandra, muito obrigada por esta entrevista.



segunda-feira, 3 de julho de 2017

Balanço de Leituras | Junho 2017


O mês de Junho não foi forte em muitas leituras, mas sim em descanso, viagens e alguns imprevistos pelo meio (como já vem sendo habitual). Contudo, todos os livros lidos foram muito bons. Dois livros de ficção e dois de não-ficção. 

Gosto quando leio bons livros, mesmo que isso implique ler menos. Por vezes menos é mais. Que Julho seja tão bom em qualidade quanto Junho. 

E vocês o que leram no mês de Junho?

Leituras

O Espião Português (Trilogia Freelancer #1), de Nuno Nepumoceno
Aqueles Que Merecem Morrer, de Peter Swanson
#GeraçãoCordão, de Ivone Patrão
Mãe, não desistas de viver, de Tânia Laranjo

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Conversas de Mil Histórias | Nuno Nepomuceno



Após uma longa pausa hoje retomamos um segmento aqui no blogue: As Conversas de Mil Histórias. Um espaço de conversas sobre livros com diversos convidados. 

O convidado de hoje é o Nuno Nepomuceno, autor dos livros A Célula Adormecida e da Trilogia Freelancer, composta por O Espião Português, A Espia do Oriente (opinião em breve) e A Hora Solene (opinião em breve).

Espero que gostem e que leiam os livros do autor Nuno Nepumoceno, pois valem muito a pena. 



Jardim de Mil Histórias - O Nuno é formado em Matemática. Como surgiu esta paixão pela escrita e por contar histórias?

Nuno Nepomuceno - Iniciou-se com a leitura. Por influência da minha mãe, que sempre me incentivou a isso, acabei por crescer acompanhado por livros. Os meus gostos foram evoluindo com a idade, claro. Recordo-me de ler coleções como Os Cinco, Os Hardy ou Uma Aventura, que me eram oferecidas pelo Natal ou que ia requisitar à biblioteca municipal. Gostava bastante de o fazer, de andar pela rua com os livros na mão enquanto ia e vinha.
Depois, quando passei a ser financeiramente independente, é que comecei a investir mais noutros géneros, como os thrillers. Houve um momento a partir do qual, que não sou capaz de precisar com exatidão, em que comecei a sentir curiosidade sobre como seria estar do outro lado, ou seja, ter o poder de criar e manipular as personagens, entrando, assim, no imaginário do leitor. Hoje em dia é isso que me motiva mais — a possibilidade de suscitar emoções em que lê o meu trabalho.

Nuno Nepomuceno


J.M.H. - A trilogia “Freelancer” teve um grande impacto nos leitores. Foi com a primeira parte, “O Espião Português”, que ganhou, em 2012, o Prémio Literário Note!. Estava à espera desse reconhecimento?

N. N. - Eu já publiquei quatro livros e quer o processo, como os resultados que obtive, foram diferentes em todos eles. É difícil dizer se eu esperava ganhar um prémio revelação ou se aquele livro que eu tinha escrito durante oito anos se tornaria num sucesso comercial. Quando concorri, quis acreditar que sim, e quando O Espião Português foi colocado à venda, desejei-lhe o melhor. Mas nunca se sabe muito bem o que vai acontecer. O mercado livreiro não é tão previsível quanto possamos pensar e, por vezes, há surpresas, sejam elas boas ou más. Eu limito-me a ser otimista.



J. M. H. -  O seu mais recente livro “A Célula Adormecida” desperta-nos para uma hipótese de ataque terrorista em Lisboa. Hoje em dia é uma hipótese bem real. O que pretendeu com esta história?


N. N. - Tive dois objetivos, essencialmente. O primeiro foi provocar uma mudança na minha carreira. A trilogia Freelancer acabou por deixar uma marca algo inesperada, sobretudo, devido ao carisma do protagonista, e eu quis distanciar-me de tal, ou seja, mostrar ao meu público que sou um escritor com mais do que uma dimensão e, através disso, cativar outros leitores. Daí A Célula Adormecida ser um romance bem mais negro do que os anteriores que publiquei, assumindo-se claramente com um thriller psicológico e não tanto como um policial.
Por outro lado, desejava abordar um tema que julgo ser importante e que, infelizmente, começa a fazer parte da nossa vida diária. Os grupos terroristas têm muitas nuances, estando, por vezes, associados as outros fenómenos de forma mais ou menos direta. Foi assim também que surgiu a ideia de abordar temas fraturantes da nossa sociedade, que com o livro desejei colocar sob reflexão. Refiro-me aos movimentos migratórios, à instabilidade no Médio Oriente, ao extremismo e radicalização da Europa, entre outros. A mensagem final que tentei transmitir foi a de tolerância. Espero que tenha chegado aos leitores.


J. M. H. - Nota-se nos seus livros um grande rigor factual, histórico e social. Faz algum trabalho de investigação prévia?

N. N. - Sim, é algo que comecei a trabalhar logo com O Espião Português, mas que tem ganho preponderância em todo o meu processo criativo com o passar dos anos. Procuro ler sobre os temas que quero abordar, visitar os locais que escolho para a ação dos livros, entrevistar especialistas ou até mesmo viver parte daquilo que desejo descrever. Por exemplo, assisti a alguns serviços religiosos na Mesquita Central de Lisboa durante o ano em que dediquei à redação de A Célula Adormecida. E isso acabou por ser muito importante para mim, pois, enquanto estava lá sentado a observar em silêncio as pessoas que rezavam, as ideias iam surgindo naturalmente.


J. M. H. - Quais as suas grandes referências enquanto escritor?

N. N. - Em termos técnicos, não tenho ninguém. A escrita não é estanque e há certas formas de o fazer que aprecio e outras que nem por isso. Procuro escrever aquilo com me sinto confortável, incluindo as opções criativos que tomo, não embarcando em modas ou fórmulas que se dizem ser extremamente vendáveis na atualidade. Fora isso, há autores cuja carreira vejo como um exemplo e cujos livros me dão bastante prazer. Posso citar os casos de Ken Follet e Daniel Silva, se bem que existam outros. Já li excelentes obras fora do registo policial.


J. M. H. - Em que é se inspira para escrever?
N. N. - É um processo misto. Tanto pode vir de uma fotografia, como aconteceu com A Espia do Oriente, ou através de uma canção, como foi o caso de A Hora Solene. Ou até um livro, no caso do conto « A Cidade», com o qual integrei a coletânea Desassossego da Liberdade. Mas tento manter um espírito aberto e ser recetivo a novos elementos. Por vezes, as melhores ideias surgem de forma inesperada. De repente, estou a escrever e é como se os dedos tivessem vida própria. Há uma frase que surge sem ser planeada e que muda tudo.


J. M. H. - Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que o processo de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
N. N. - Eu gosto de pensar que tenho algum talento. Se assim não fosse, não iria escrever, pois foi a vontade de mostrar aos outros o que considero ser capaz de fazer que me levou a começar, independentemente do muito ou pouco sucesso que viesse a ter. Mas tudo requer imenso trabalho e quando começamos um livro é bom que estejamos cientes de que não vai ser fácil. Se a memória não me falha, nunca escrevi um capítulo à primeira. Chego a revê-los quatro e cinco vezes e até a reescrevê-los constantemente ou mesmo deitá-los fora.


J. M. H. - Sente de alguma forma que a literatura portuguesa não é tão valorizada face à literatura internacional?
N. N. - Existe algum desfavorecimento, sim, mas que penso ter-se atenuado nos últimos tempos. Há autores portugueses que vendem mais em alturas muito críticas, como o Natal, do que os escritores estrangeiros. Espero que seja uma situação que tenda a continuar a evoluir de forma positiva no futuro. Pelo menos, o passado recente dá-nos alguma esperança nesse sentido. Há alguns anos, a ficção portuguesa debatia-se para competir com a norte-americana ou brasileira e hoje em dia lidera audiências. O mesmo tem vindo a acontecer com a nossa música. Nós temos uma relação algo curiosa com o que fazemos. Julgamos sempre que é de qualidade inferior. O que nos chega de fora exerce um grande fascínio sobre o consumidor. Resta a esperança que, à semelhança da transformação que tem vindo a ocorrer noutros setores da cultura, o mesmo se venha a suceder com a literatura nacional.


J. M. H. - Enquanto leitor o que gosta mais de ler? E o que não gosta de ler?
N. N. - Aprecio essencialmente thrillers e policiais, com algumas incursões felizes pela fantasia e romances históricos, mas ciente de que um bom livro deve ser lido e, portanto, com abertura para as surpresas que poderão surgir. E não tenho nenhum género, formato ou autor que me cause aversão. Ler faz parte da nossa vida. Precisamos de o fazer diariamente.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
N. N. - Os Pilares da Terra, de Ken Follett, e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Adoro as épocas históricas em que decorrem e admiro os autores pelo excelente trabalho que realizaram com os livros. O Estranho Caso do Cão Morto, de Mark Haddon, também é uma obra que me marcou muito, sobretudo, pela forma criativa e sensível com que explorou o tema do autismo.


J. M. H. - Para quem não conhece a sua obra, e no sentido de convencer o nossos leitores a ler os seus livros, qual deles define melhor a sua escrita?
N. N. - Esta é uma pergunta muito difícil. Todos eles são especiais para mim à sua maneira. Os primeiros porque não foi fácil publicá-los, além de terem exigido um esforço considerável para os escrever, já que não possuía qualquer experiência; os últimos porque traduzem melhor a pessoa que sou hoje em dia. Prefiro que sejam os meus leitores a decidir isso.


J. M. H. - Que projetos literários tem para o futuro?
N. N. - Neste momento, encontro-me a trabalhar em mais um thriller psicológico, que, apesar de ter alguns pontos de contacto com A Célula Adormecida, não será sobre terrorismo, embora envolva de novo uma grande dimensão cultural e religiosa, além de outros elementos que são transversais ao meu trabalho, como aventura, romance, espionagem e alguma ação.
Estou numa fase importante do livro, mas algo embrionária, ainda, razão pela qual não sei quando será publicado. Prefiro levar o meu tempo e regressar quando me sentir preparado, quando tiver a certeza de que este é o meu melhor livro até ao momento.


J. M. H. - Nuno, muito obrigada por esta entrevista.
N. N. - Eu é agradeço a oportunidade e convido todos os leitores a continuarem a passear pelas mil histórias do seu jardim.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pausa | O blogue vai de férias



Por vezes precisamos de parar. Para descansar, para pensar, para viver, para renascer. A partir de hoje o blogue vai estar de férias e voltamos dia 29 de Junho com mais opiniões e algumas novidades.

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Boas leituras.