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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Opinião | "A Porteira, a madame" ,de Joana Carvalho Fernandes



Este é um livro de histórias reais. Não são contos, mas histórias de vida. De portugueses que deixaram tudo para trás e foram em busca de uma vida melhor. França foi o país escolhido (ou não). 

Estou certa que muitos de vós conhecerá algumas destas histórias. Todos temos tios, avós ou outros familiares que emigraram. Estas histórias não são nem mais, nem menos que outras. São percurso de vida de quem lutou e ainda luta por uma vida melhor. 

Joana Carvalho Fernandes é jornalista e esteve em França a trabalhar durante bastante tempo. Foi lá que conheceu estas histórias que mais tarde decidiu partilhar através deste livro, uma colecção "Retratos da Fundação", da Fundação Francisco Manuel dos Santos. 

Um livro pequeno, mas com muita vida no seu interior.

Aconselho. Boas leituras.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Opinião | "A Espia do Oriente", de Nuno Nepomuceno | Trilogia Freelancer # 2


Título: A Espia do Oriente
Autor(a): Nuno Nepomuceno
Editora: Top Books
Temática/Género: Literatura /Policial/Thriller
N.º de Páginas: 376 páginas
Edição: 2015



Sinopse:
Dubai, Emirados Árabes Unidos.

De férias na região, um investigador norte-americano é raptado do hotel onde se encontrava instalado. Uma nova pista sobre um antigo projecto de manipulação genética é descoberta e a Dark Star, uma organização terrorista internacional, está decidida a utilizar os conhecimentos deste cientista para ganhar vantagem.

Contudo, de regresso à Europa, uma das suas operacionais resolve trair o sindicato do crime e oferece-se para trabalhar como agente dupla ao serviço da inteligência britânica. O mistério adensa-se quando esta mulher, de nome de código China Girl, impõe como única condição colaborar com André Marques-Smith, o director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português e espião ocasional.

Obrigados a trabalhar juntos para evitarem um atentado a uma importante líder europeia, uma atmosfera tensa, de suspeição e desconfiança, instala-se de imediato entre os dois. Mas que segredos esconderá esta mulher, cujo próprio nome é uma incógnita? Serão as suas intenções autênticas? Será o espião português capaz de resistir à sua invulgar e exótica beleza?

Vencedor do Prémio Literário Note! 2012, Nuno Nepomuceno regressa com A Espia do Oriente, o segundo livro da série Freelancer. Por entre os cenários reais de Budapeste, Berlim, Londres, Courchevel, Dubai e Lisboa, o autor transporta-nos para um mundo de mentiras, complexas relações interpessoais, e reviravoltas imprevisíveis. Uma reflexão profunda sobre os valores tradicionais portugueses, contraposta com a sua já habitual narrativa intimista e sofisticada, e que vai muito além do tradicional romance de espionagem.



Opinião:
Sendo o segundo livro da trilogia Freelancer do autor Nuno Nepomuceno não vou querer falar muito sobre a história deste livro. Contudo, NÃO LEIAM ESTA OPINIÃO SE AINDA NÃO LERAM O LIVRO ANTERIOR!

Li o primeiro livro de uma assentada. Logo, quando o terminei fiquei ansiosa para iniciar o segundo. No entanto, quis dar a pausa e o distanciamento necessário para não me cansar da narrativa.

Se o primeiro livro foi uma introdução a toda a história neste volume encontramos mais acção e uma aprofundamento da vida de espião do André Marques-Smith. Temos a oportunidade de conhecer melhor outras oportunidades, como a China Girl, que inicia uma empatia maior com o leitor (pelo menos foi essa a minha percepção). 

Novamente muito bem escrito, com muito ritmo e acção. Não sou de ler séries ou trilogias. Se não me engano esta é a primeira série/trilogia que leio. Contudo, acho que o segundo volume é sempre mais denso, pois tem maior profundidade na história. 

Não vou já ler o último livro pelas mesmas razões que não li imediatamente o segundo. Mas será para breve, pois quero ler e conhecer o final desta história e destas personagens que me acompanharam durante algum tempo.

Não deixem de ler, que vale a pena.

Boas leituras.



Nota:

Esta foi uma leitura para o Desafio Literário Book Bingo "Leituras ao Sol", na categoria "Autor Lusófono".



terça-feira, 4 de julho de 2017

Conversas de Mil Histórias | Sandra Barão Nobre



Jardim de Mil Histórias - A Sandra tem um blogue “O Acordo Fotográfico” que liga duas das suas paixões: os livros e a fotografia. Como surgiu este blogue?


Sandra Barão Nobre - A ideia surgiu em Lisboa, em Agosto de 2010, num fim-de-semana que lá passei quando estava a aprender os rudimentos da fotografia. Num desses dias fotografei ao longe uma mulher a ler e ocorreu-me que seria interessante perguntar-lhe o que lia e depois escrever sobre isso. Partilhei a ideia com uma pessoa em meados de 2011 e fiz as primeiras fotos em Agosto de 2011. O Acordo Fotográfico só arrancou em Dezembro desse ano. Entre a ideia e a concretização passou-se um ano e meio. Porque me surgiu a ideia? Julgo que foi porque andava entediada com a minha vida profissional e precisava urgentemente de fazer algo que abanasse um pouco a rotina e a minha postura comodista, na qual não me revia de todo! Aprendi que o tédio, quando bem canalizado, pode estar na base da criatividade e da reinvenção.


J. M. H. - Neste blogue fotografa pessoas a ler, pelo mundo inteiro. Houve alguém que fotografasse que a tivesse marcado de alguma forma?
S. B. N. - Ao fim de 450 posts começa a ser difícil escolher... Tenho conhecido pessoas maravilhosas, com histórias de vida incríveis e generosidade suficiente para partilhá-las com milhares de estranhos. Gosto muito do texto que escrevi a propósito do meu encontro com a Maryam, no Irão, em Abril passado. Gosto muito, também, da história da Dora, que fotografei em Madrid, em 2013. E do post sobre o Winnie e ou Touy, que conheci no Laos, em 2014.


S.B.N. -  Qual o país que mais a marcou?
É uma escolha difícil porque todos os países que visitei estavam na minha lista de desejos por concretizar um dia. Visitar o Brasil pela enésima vez foi emocionante. Adorei Sydney, Timor-Leste foi incrível, Zanzibar é tão lindo que custa a crer que seja real, a África do Sul é belíssima, São Tomé e Príncipe não me sai da cabeça e o Irão está a transformar-se num vício. Talvez possa dizer que o Vietname me marcou particularmente porque não estava à espera de gostar tanto. Foi uma paixão ensolapada que me apanhou desprevenida e que ainda não processei racionalmente. E o Irão, também, por causa dos sentimentos mistos que me suscita: a sofisticada e refinada cultura persa vs. o fundamentalismo islâmico; o povo mais acolhedor do mundo vs. a vida sem democracia...
Sandra Barão Nobre


J. M. H. - A Sandra tem um projecto de terapia através dos livros: “A Biblioterapeuta”. Fale-nos um pouco desse projecto.
S. B. N. - Cruzei-me com o conceito de Biblioterapia em 2012/2013. Não sabia que a palavra existia, mas entendi imediatamente o significado que encerrava. Havia anos que procurava ajuda nos livros e que aconselhava livros a familiares, amigos e clientes (porque fui livreira durante 12 anos) com base no seu potencial terapêutico e transformador. Parti para a volta ao mundo, em 2014, com a Biblioterapia na cabeça e quando, em 2015, decidi mudar de vida vi nela a possibilidade de um novo caminho profissional. Obtive primeiro um certificado internacional de Coaching Practitioner e posteriormente apliquei a metodologia do Coaching à Biblioterapia que exerço. Lancei o serviço em Maio de 2016, há um ano, e estou satisfeita com a forma como tem progredido.


J. M. H. - Portanto acredita no poder curativo dos livros. Descreva uma situação em que sentiu que os livros a ajudaram.
S. B. N. - Já sentia a necessidade de me reinventar profissionalmente ainda antes de pedir a licença sem vencimento e partir para a grande viagem de seis meses à volta do mundo. Entre 2013 e 2015, já depois do regresso à vida dita “normal”, houve um punhado de livros que me ajudou a tomar a decisão de mudar de vida, de ser fiel aos meus valores de uma vez por todas e perseguir os meus sonhos, apesar dos evidentes sacrifícios que seriam necessários. Foram eles: “Um longo caminho para a liberdade”, de Nelson Mandela; “Como encontrar o trabalho perfeito”, de Roman Krznaric; “O elemento”, de Ken Robinson e “Projectar a felicidade”, de Paul Dolan. O clássico “Inteligência Emocional”, de Daniel Golan, foi lido muitos anos antes, mas também foi fundamental porque me deu ferramentas para a vida.


J. M. H. - Que tipo de trabalho faz a Biblioterapeuta?
S. B. N. - A Biblioterapia que exerço — quer com clientes individuais, quer em contexto corporativo — trabalha em prol de uma mudança para melhor. Procuro conhecer o melhor possível a pessoa ou instituição que procura os meus serviços, investigo e apresento a lista de títulos a ler, providencio algumas orientações para essas leituras e depois, no decorrer das sessões seguintes, trabalhamos sobre as aprendizagens e descobertas feitas e vemos de que forma podem ser aplicadas na vida do dia a dia,  através do estabelecimento de um plano de acção, para potenciar uma transformação positiva. Aqui, gostaria de salientar que o grau de compromisso dos clientes é fundamental para que o método funcione.


J. M. H. - O que a mais fascina neste novo desafio profissional?
S. B. N. - A aprendizagem constante e a noção de que estou a ajudar os outros.


Para mais informações sobre o livro
J. M. H. - Lançou recentemente um livro Uma Volta ao Mundo com Leitores. Como surgiu esta oportunidade? Sempre foi um desejo seu?
S. B. N. - Quando regressei da volta ao mundo, em 2014, achei que poderia ter material para
publicar um livro sobre a experiência enquanto viajante e autora do Acordo Fotográfico. Contactei duas editoras: uma disse-me que o projecto, tal e qual e o concebera, não era comercialmente viável; a outra nunca me respondeu. Passaram-se uns meses sem que pensasse nisso, mas a verdade é que quando fui para Cabo Verde trabalhar, em 2015, levei comigo tudo o que tinha escrito durante a grande viagem e ocupei as minhas horas livres a organizar os textos e a passar os diários a limpo. O livro ficou praticamente terminado nessa altura. Depois fechei-o na gaveta. Até ao dia 27 de Dezembro de 2016, quando chegou por e-mail o convite da Relógio d’ Água.


J. M. H. - Enquanto leitora que livros gosta de ler? E do que não gosta de ler?
S. B. N. - Dei-me conta recentemente que não leio livros de política, economia, gestão... Gosto muito de ler romances e foi o género literário que mais consumi até há uns dois ou três anos. Mas agora estou a ler muito mais ensaios filosóficos, históricos, obras da área das ciências sociais. Dos dez livros que li este ano, apenas três eram de ficção.


J. M. H. - Que projectos tem para um futuro próximo?
S. B. N. - Tenho uma série de projectos de Biblioterapia importantes a arrancar e para os quais tenho grandes objectivos. Não me posso adiantar muito ainda, mas julgo que terão, a longo prazo, um impacto social significativo. Vou continuar a escrever para o Acordo Fotográfico, claro, e espero que as viagens sejam uma importante fonte de inspiração. Em Outubro parto para Myanmar para mais uma viagem Magellan Route organizada por mim. Se alguém se quiser juntar ao grupo é só entrar em contacto comigo: ainda há vagas. Em 2018 voltarei ao Irão. De forma mais imediata, estou agora a investir na promoção do meu livro “Uma Volta ao Mundo com Leitores”.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
S. B. N. - Esta é aquela pergunta que me faz provar do meu próprio veneno, porque também eu a coloco muitas vezes aos leitores que fotografo e é raro alguém saber responder com convicção. Pois bem, é muito difícil escolher apenas um livro, mas posso apontar “Os Maias”, do Eça de Queirós, como o romance que me ajudou a fazer a transição da Literatura juvenil para a Literatura dos adultos e para a grande Literatura. Devo-lhe muito como leitora, formou-me e tornou-me exigente. Depois, mais recentemente, “Servidão Humana”, de Somerset Maugham e “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, um livro colossal que tem toda a Humanidade lá dentro. Estou constantemente a pegar nele para reler um parágrafo ou outro.

Sandra, muito obrigada por esta entrevista.



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Conversas de Mil Histórias | Nuno Nepomuceno



Após uma longa pausa hoje retomamos um segmento aqui no blogue: As Conversas de Mil Histórias. Um espaço de conversas sobre livros com diversos convidados. 

O convidado de hoje é o Nuno Nepomuceno, autor dos livros A Célula Adormecida e da Trilogia Freelancer, composta por O Espião Português, A Espia do Oriente (opinião em breve) e A Hora Solene (opinião em breve).

Espero que gostem e que leiam os livros do autor Nuno Nepumoceno, pois valem muito a pena. 



Jardim de Mil Histórias - O Nuno é formado em Matemática. Como surgiu esta paixão pela escrita e por contar histórias?

Nuno Nepomuceno - Iniciou-se com a leitura. Por influência da minha mãe, que sempre me incentivou a isso, acabei por crescer acompanhado por livros. Os meus gostos foram evoluindo com a idade, claro. Recordo-me de ler coleções como Os Cinco, Os Hardy ou Uma Aventura, que me eram oferecidas pelo Natal ou que ia requisitar à biblioteca municipal. Gostava bastante de o fazer, de andar pela rua com os livros na mão enquanto ia e vinha.
Depois, quando passei a ser financeiramente independente, é que comecei a investir mais noutros géneros, como os thrillers. Houve um momento a partir do qual, que não sou capaz de precisar com exatidão, em que comecei a sentir curiosidade sobre como seria estar do outro lado, ou seja, ter o poder de criar e manipular as personagens, entrando, assim, no imaginário do leitor. Hoje em dia é isso que me motiva mais — a possibilidade de suscitar emoções em que lê o meu trabalho.

Nuno Nepomuceno


J.M.H. - A trilogia “Freelancer” teve um grande impacto nos leitores. Foi com a primeira parte, “O Espião Português”, que ganhou, em 2012, o Prémio Literário Note!. Estava à espera desse reconhecimento?

N. N. - Eu já publiquei quatro livros e quer o processo, como os resultados que obtive, foram diferentes em todos eles. É difícil dizer se eu esperava ganhar um prémio revelação ou se aquele livro que eu tinha escrito durante oito anos se tornaria num sucesso comercial. Quando concorri, quis acreditar que sim, e quando O Espião Português foi colocado à venda, desejei-lhe o melhor. Mas nunca se sabe muito bem o que vai acontecer. O mercado livreiro não é tão previsível quanto possamos pensar e, por vezes, há surpresas, sejam elas boas ou más. Eu limito-me a ser otimista.



J. M. H. -  O seu mais recente livro “A Célula Adormecida” desperta-nos para uma hipótese de ataque terrorista em Lisboa. Hoje em dia é uma hipótese bem real. O que pretendeu com esta história?


N. N. - Tive dois objetivos, essencialmente. O primeiro foi provocar uma mudança na minha carreira. A trilogia Freelancer acabou por deixar uma marca algo inesperada, sobretudo, devido ao carisma do protagonista, e eu quis distanciar-me de tal, ou seja, mostrar ao meu público que sou um escritor com mais do que uma dimensão e, através disso, cativar outros leitores. Daí A Célula Adormecida ser um romance bem mais negro do que os anteriores que publiquei, assumindo-se claramente com um thriller psicológico e não tanto como um policial.
Por outro lado, desejava abordar um tema que julgo ser importante e que, infelizmente, começa a fazer parte da nossa vida diária. Os grupos terroristas têm muitas nuances, estando, por vezes, associados as outros fenómenos de forma mais ou menos direta. Foi assim também que surgiu a ideia de abordar temas fraturantes da nossa sociedade, que com o livro desejei colocar sob reflexão. Refiro-me aos movimentos migratórios, à instabilidade no Médio Oriente, ao extremismo e radicalização da Europa, entre outros. A mensagem final que tentei transmitir foi a de tolerância. Espero que tenha chegado aos leitores.


J. M. H. - Nota-se nos seus livros um grande rigor factual, histórico e social. Faz algum trabalho de investigação prévia?

N. N. - Sim, é algo que comecei a trabalhar logo com O Espião Português, mas que tem ganho preponderância em todo o meu processo criativo com o passar dos anos. Procuro ler sobre os temas que quero abordar, visitar os locais que escolho para a ação dos livros, entrevistar especialistas ou até mesmo viver parte daquilo que desejo descrever. Por exemplo, assisti a alguns serviços religiosos na Mesquita Central de Lisboa durante o ano em que dediquei à redação de A Célula Adormecida. E isso acabou por ser muito importante para mim, pois, enquanto estava lá sentado a observar em silêncio as pessoas que rezavam, as ideias iam surgindo naturalmente.


J. M. H. - Quais as suas grandes referências enquanto escritor?

N. N. - Em termos técnicos, não tenho ninguém. A escrita não é estanque e há certas formas de o fazer que aprecio e outras que nem por isso. Procuro escrever aquilo com me sinto confortável, incluindo as opções criativos que tomo, não embarcando em modas ou fórmulas que se dizem ser extremamente vendáveis na atualidade. Fora isso, há autores cuja carreira vejo como um exemplo e cujos livros me dão bastante prazer. Posso citar os casos de Ken Follet e Daniel Silva, se bem que existam outros. Já li excelentes obras fora do registo policial.


J. M. H. - Em que é se inspira para escrever?
N. N. - É um processo misto. Tanto pode vir de uma fotografia, como aconteceu com A Espia do Oriente, ou através de uma canção, como foi o caso de A Hora Solene. Ou até um livro, no caso do conto « A Cidade», com o qual integrei a coletânea Desassossego da Liberdade. Mas tento manter um espírito aberto e ser recetivo a novos elementos. Por vezes, as melhores ideias surgem de forma inesperada. De repente, estou a escrever e é como se os dedos tivessem vida própria. Há uma frase que surge sem ser planeada e que muda tudo.


J. M. H. - Ouvimos muitas vezes os autores afirmarem que o processo de escrita concentra-se em 90% de trabalho e 10% de talento. Concorda?
N. N. - Eu gosto de pensar que tenho algum talento. Se assim não fosse, não iria escrever, pois foi a vontade de mostrar aos outros o que considero ser capaz de fazer que me levou a começar, independentemente do muito ou pouco sucesso que viesse a ter. Mas tudo requer imenso trabalho e quando começamos um livro é bom que estejamos cientes de que não vai ser fácil. Se a memória não me falha, nunca escrevi um capítulo à primeira. Chego a revê-los quatro e cinco vezes e até a reescrevê-los constantemente ou mesmo deitá-los fora.


J. M. H. - Sente de alguma forma que a literatura portuguesa não é tão valorizada face à literatura internacional?
N. N. - Existe algum desfavorecimento, sim, mas que penso ter-se atenuado nos últimos tempos. Há autores portugueses que vendem mais em alturas muito críticas, como o Natal, do que os escritores estrangeiros. Espero que seja uma situação que tenda a continuar a evoluir de forma positiva no futuro. Pelo menos, o passado recente dá-nos alguma esperança nesse sentido. Há alguns anos, a ficção portuguesa debatia-se para competir com a norte-americana ou brasileira e hoje em dia lidera audiências. O mesmo tem vindo a acontecer com a nossa música. Nós temos uma relação algo curiosa com o que fazemos. Julgamos sempre que é de qualidade inferior. O que nos chega de fora exerce um grande fascínio sobre o consumidor. Resta a esperança que, à semelhança da transformação que tem vindo a ocorrer noutros setores da cultura, o mesmo se venha a suceder com a literatura nacional.


J. M. H. - Enquanto leitor o que gosta mais de ler? E o que não gosta de ler?
N. N. - Aprecio essencialmente thrillers e policiais, com algumas incursões felizes pela fantasia e romances históricos, mas ciente de que um bom livro deve ser lido e, portanto, com abertura para as surpresas que poderão surgir. E não tenho nenhum género, formato ou autor que me cause aversão. Ler faz parte da nossa vida. Precisamos de o fazer diariamente.


J. M. H. - Qual o livro da sua vida?
N. N. - Os Pilares da Terra, de Ken Follett, e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Adoro as épocas históricas em que decorrem e admiro os autores pelo excelente trabalho que realizaram com os livros. O Estranho Caso do Cão Morto, de Mark Haddon, também é uma obra que me marcou muito, sobretudo, pela forma criativa e sensível com que explorou o tema do autismo.


J. M. H. - Para quem não conhece a sua obra, e no sentido de convencer o nossos leitores a ler os seus livros, qual deles define melhor a sua escrita?
N. N. - Esta é uma pergunta muito difícil. Todos eles são especiais para mim à sua maneira. Os primeiros porque não foi fácil publicá-los, além de terem exigido um esforço considerável para os escrever, já que não possuía qualquer experiência; os últimos porque traduzem melhor a pessoa que sou hoje em dia. Prefiro que sejam os meus leitores a decidir isso.


J. M. H. - Que projetos literários tem para o futuro?
N. N. - Neste momento, encontro-me a trabalhar em mais um thriller psicológico, que, apesar de ter alguns pontos de contacto com A Célula Adormecida, não será sobre terrorismo, embora envolva de novo uma grande dimensão cultural e religiosa, além de outros elementos que são transversais ao meu trabalho, como aventura, romance, espionagem e alguma ação.
Estou numa fase importante do livro, mas algo embrionária, ainda, razão pela qual não sei quando será publicado. Prefiro levar o meu tempo e regressar quando me sentir preparado, quando tiver a certeza de que este é o meu melhor livro até ao momento.


J. M. H. - Nuno, muito obrigada por esta entrevista.
N. N. - Eu é agradeço a oportunidade e convido todos os leitores a continuarem a passear pelas mil histórias do seu jardim.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Opinião | "O Espião Português", de Nuno Nepomuceno | Trilogia Freelancer # 1

Título: O Espião Português (Freelancer # 1)
Autor(a): Nuno Nepomuceno
Editora: TopBooks
N.º de Páginas: 376 páginas
Edição: 2015
Temática/Género: Literatura/Romance

Classificação: 5 estrelas




Sinopse:
E se toda a sua vida, tudo aquilo em que acredita, não passar de uma mentira? O que faria?

Estocolmo, Suécia.
Encerramento da Presidência da União Europeia.

Quando André Marques-Smith, o jovem director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português é enviado à capital sueca, está longe de imaginar que aquele será um ponto de viragem na sua vida.

Ao serviço da Cadmo, a agência de espionagem semigovernamental para a qual secretamente trabalha, recupera a primeira parte de um grupo de documentos pertencentes a um investigador russo já falecido. Mas quando regressa a Portugal, tudo muda. Uma nova força obteve a segunda parte do projecto e, de uma forma violenta e aterrorizadora, resolveu mostrar ao mundo que está na corrida pelos estudos do cientista.

Por entre os cenários reais de cidades como Estocolmo, Roma, Viena, Londres e Lisboa, a luta pelo inovador projecto começa, os disfarces sucedem-se, as missões multiplicam-se. E, enquanto é forçado a lidar com os condicionalismos de uma vida dupla, André vê-se inesperadamente envolvido num mundo de mentiras e traições; o mesmo que o levará a fazer uma descoberta que poderá mudar toda a Humanidade.

Vencedor do Prémio Literário Note! 2012, O Espião Português funde elementos tradicionais da ficção de espionagem com uma abordagem inovadora, intimista e sofisticada. Thriller intenso e vertiginoso, ode à família, amizade e amor, este é um romance imprevisível e contemporâneo ao qual não deixará de ficar indiferente.



Opinião:
Uma das muitas coisas boas que esta comunidade me trouxe foi ter a oportunidade de conhecer novos autores internacionais, mas também nacionais. Fico muito feliz por saber que a literatura portuguesa está no bom caminho e recomenda-se.

O Nuno é um bom exemplo disso. Depois de ter lido A Célula Adormecida fiquei cheia de curiosidade de ler esta trilogia. E o Nuno teve a gentileza de me enviar exemplares para poder conhecer esta história e dar opinião no blogue.

Li-o de uma forma quase compulsiva. Este é o tipo de história e de escrita que gosto. Uma leitura agradável, com ritmo e, sobretudo, muito bem escrita. Nota-se o cuidado do autor na forma como dá rumo à história e na construção das personagens. 

Um livro que nos permite viajar por alguns locais da Europa que eu tanto gosto. Uma leitura perfeita para dias mais agitados e para o verão. Escusado será dizer que estou ansiosa para voltar a esta história com o próximo volume A Espia do Oriente


Recomendo a todos. Não só aos que gostam de bons thrillers

Nota:
Este livro foi-me enviado pelo autor em troca de uma opinião sincera. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Opinião | "As Três Vidas", de João Tordo


Título: As Três Vidas
Autor(a): João Tordo
Editora: Quidnovi
N.º de Páginas: 306 páginas
Edição: 2008
Temática/Género: Literatura/Romance

Classificação: 3,5 estrelas



Sinopse:
Que segredos rodeiam a vida de António Augusto Milhouse Pascal, um velho senhor que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e um rol de clientes tão abastados e influentes como perigosos e loucos? São estes mistérios que o narrador - um rapaz de família modesta - procurará desvendar durante mais de um quarto de século, não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por aquela estranha personagem se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida.
Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta - época de todas as ganâncias - e cruzando a história sangrenta do século XX com a das suas personagens, As Três Vidas é, simultaneamente, uma viagem de autodescobertas através do «outro» e a história da paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Milhouse Pascal, e do destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do avô, inexoravelmente ligado à sorte de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da corda bamba em que se sustém.



Opinião:
O último (e único) livro que li do João Tordo deixou-me deslumbrada. Não só pela sua capacidade de contar histórias, mas sobretudo pela sua escrita. Quis ler mais. Decidi que este seria o próximo.

Não me conquistou como eu esperava. É certo que a história deixa-nos intrigados. Queremos mais. Considerei que todo o mistério que o autor criou na narrativa, de facto mantém o interesse do leitor. Contudo, achei algumas passagens da história um pouco forçadas e desnecessárias. Também não consegui sentir qualquer empatia com as personagens. 

É indiscutível a qualidade da escrita do autor. Envolvente, cativante. Gostei do rumo que o autor deu à história e às personagens. Os factos reais que incluiu na narrativa deram um "ar mais real" à história. Mas a certa altura a história tornou-se "excessiva". 

No entanto, não deixem de ler. Uma boa história, de um autor português, com bastante mistério.

Boas leituras. 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Opinião | "A Célula Adormecida", de Nuno Nepomuceno


Título: A Célula Adormecida
Autor(a): Nuno Nepomuceno
Editora: Top Books
N.º de Páginas: 592 páginas
Edição: 2016
Temática/Género: Literatura/Romance

Classificação: 5 estrelas


Sinopse:
«Assim queira Deus, o Califado foi estabelecido e iremos invadir-vos como vocês nos invadiram. Iremos capturar as vossas mulheres como vocês capturaram as nossas mulheres. Vamos deixar os vossos filhos órfãos como vocês deixaram órfãos os nossos filhos.»
Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico, 2014.

Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma reputada jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.
O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo, quando Afonso Catalão, um conhecido especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.
De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.
A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.

Com uma escrita elegante e o seu já tão característico estilo intimista e sofisticado, inspirado em acontecimentos verídicos, Nuno Nepomuceno dá-nos a conhecer A Célula Adormecida. Passado durante os 30 dias do mês do Ramadão, este é um romance contemporâneo, onde ficção e realidade se confundem num estranho mundo novo e aterrador que a todos nos perturba. Um thriller psicológico de leitura compulsiva, inquietante, negro e inquestionavelmente atual.


Opinião:
Confesso que comecei a "conhecer" o Nuno Nepomuceno através das opiniões nos blogues. Um autor que desconhecia por completo, até então. E sempre que oiço falar do Nuno é sempre com muito respeito e carinho. Para além do enorme talento que tem para escrever. 

Fiquei cada vez mais curiosa. Tinha mesmo que ler algo deste autor. Até que o Nuno, muito simpático e atencioso, enviou-me um exemplar do seu último livro A Célula Adormecida para poder dar opinião no blogue. É claro que as expectativas eram elevadíssimas. Pessoas em quem eu confio nas opiniões literárias me recomendaram ler este livro. E, posso dizer, que não desiludiu.

Quem me conhece sabe que gosto de thrillers, mas não qualquer um. Sou um público difícil nesse género. Gosto de histórias bem escritas, credíveis e, sobretudo, bem fundamentadas. Tudo isto encontrei no livro A Célula Adormecida. Uma escrita impecável, um enredo interessante e personagens que nos envolvem. 

Quando leio, gosto de sonhar, mas também gosto de aprender. De sentir que o autor não só se preocupou com a ficção, mas com os factos reais da história. Toda a investigação e fundamentação que a história apresenta é notável. 

Um livro que fala vivemos numa sociedade fragilizada, em que os valores da vida humana estão a morrer. Uma história de ficção, mas um retrato tão real que arrepia. Uma escrita elegante e real.

Foi uma leitura compulsiva, que naturalmente recomendo. 

Muito obrigada ao Nuno Nepomuceno pelo exemplar do livro. E, para quem não sabe, este livro está a passatempo no blogue. O que estão à espera para participar?!

Boas leituras. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Passatempo de Primavera # 2 | "A Célula Adormecida", de Nuno Nepomuceno | Topbooks

O autor Nuno Nepomuceno gentilmente ofereceu o seu último livro A Célula Adormecida, para passatempo aqui no blogue. Em breve irei ler o livro e partilhar opinião.

Para mais informações sobre o livro veja aqui

Para participarem só têm que responder ao formulário e cumprir todas a regras de participação. O passatempo vai decorrer até ao dia 30 de Abril, às 23h59m. Para responder às questões do formulário ver o site da editora

Boa sorte a todos!

Regras de Participação:
1. Só será permitida uma participação por pessoa;
2. É obrigatório ser seguidor público do blogue e fazer partilha do passatempo apenas no Facebook ;
3. É obrigatório colocar "Gosto" na Página de Facebook do autor Nuno Nepomuceno e na página do blog "Jardim de Mil Histórias";
4. O livro será enviado pelo autor e não se responsabiliza por extravios dos CTT;
5. O vencedor será escolhido através do Randon.org;
6. O vencedor será anunciado aqui no blogue e contactado para o e-mail referido no questionário;
7. Apenas serão aceites participações com moradas de Portugal Continental e Ilhas.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Opinião | "O Funeral da Nossa Mãe", de Célia Loureiro Correia


Título: O Funeral da Nossa Mãe
Autor(a): Célia Correia Loureiro
Editora: Alfarroba
N.º de Páginas: 438 páginas
Edição: 2012
Temática/Género: Literatura / Romance

Classificação:  5 estrelas


Sinopse:
Quando Carolina Alves se suicida, aos 58 anos, deixa um último pedido: o de que as suas três filhas se reúnam no seu funeral, na pequena povoação (fictícia) de Vila Flor, Alto Alentejo. Quer que participem na festa em honra da padroeira da mesma, pondo de lado o decoro esperado de três órfãs.

Luísa emigrou para França, é viciada em trabalho e despreza o seu passado. Praticamente jurara não voltar a pisar a vila da sua infância. Cecília, recentemente casada, é pianista de fama relativa e acabara de se mudar definitivamente para Vila Flor. Inês, que dedica a sua juventude às causas políticas, mal recorda um pai de quem se vai falar bastante e que morreu num trágico acidente de carro em vésperas de Natal...

Com a ajuda de Elisa, única irmã de Carolina, vão desvendar ao longo de quatro dias o passado inesperado da mãe, que não é bem aquilo que tinham julgado, e que cometeu um acto indesculpável para prender, há trinta e oito anos atrás, aquele que viria a ser o pai das suas três filhas...


Opinião:
A criação do blogue trouxe-me novas coisas na minha vida. Felizmente, mais positivas que negativas. Foi através do blogue que conheci e continuo a conhecer novos livros, novos géneros, mas sobretudo conhecer novos autores. Como é o caso da Célia Correia Loureiro. Se não tivesse o blogue jamais teria conhecido as suas obras. E após ter lido o Demência decidi que queria ler todas as suas obras. 

A escrita da Célia é intensa, detalhada, sem ser descrita, verdadeira e cheia de história. Gosto da forma como envolve o leitor com a história, com as personagens. As suas histórias são simples, nada complexas, até banais. Mas a forma como as conta é sublime. Conhecemos as personagens como se as conhecêssemos há muito tempo. Conhecemos a história de cada uma, o seu percurso. E alterna as histórias sem nunca aborrecer o leitor. Sabe o que o leitor procura numa história. 


Este é o livro indicado para quem gosta de histórias com pessoas reais. Amor, drama familiar,  como lidar com a perda, o luto, estão sempre presentes. Mas de muito mais fala este livro. Cada um recebe-o da forma como entender (como acontece com todos).

Pouco há mais a falar desta obra. A não ser recomendar-vos a todos a sua leitura e esperar que gostem tanto como eu.

Boas leituras.